sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

"QUEM NÃO DANÇA, CRESCE A PANÇA" O NOVO DO FRANZ VEM PRA EMAGRECER!

Texto publicado na página de Cultura e Arte do Umuarama Ilustrado, domingo, 25 de janeiro de 2009. 

  Tonight é o nome do novo disco do quarteto escocês Franz Ferdinand que será lançado nesta segunda, dia 26. Desde a quinta (22), o álbum está inteiro para audição em sua página no myspace (http://www.myspace.com/franzferdinand), mas como a "Santa Internet" nunca falha: o disco já havia vazado para download desde os primeiros dias de 2009. Muita gente já ouviu, gostou e falou dele por ai. Tanto é que os ingressos para o "show de lançamento", que foi neste dia 20 num clube gay em Londres, esgotaram em menos de 20 minutos!

  É um discão bonito que vale algumas palavrinhas: a primeira música, "Ulysses", começa com uma levada de batera tipo um Ska lento, um baixo de discoteca, vocais sussurrados e muitos "Come on, let's get high!", até se tornar mais um daqueles sons altamente dançantes do Franz Ferdinand, com "La la lás" e "Uh Uh" de montão, anunciando que o disco será muito dançante e divertido!
  As próximas, "Twilight Omens", "Bite Hard", "What She Came For" e "Can't Stop Feeling" continuam nessa levada boa pra dançar até que "Katheryne Kiss Me" dá o tempo para um descanso, uma baladinha com violões, vocal grave e letra bonita que acalmam. Então "Turn it on" chega forte, com batera dançante, baixo quente, moogs e vocais charmosos fazem dela uma das minhas favoritas do disco. Dessa vez a balada é intrigante, "Dream Again", lentinha e maluca, com vocais e percussões num clima "Strange Days" do Doors, somados a baixo, guitarras e tecladinhos que talvez lembrem "The Cure" e formam uma música que "flutua interessantemente".

  As últimas quatro canções voltam em situações de dança, "No You Girls", "Lucid Dreams, que tem um instrumental altamente dançante e acido, com sintetizadores rasgados e cheia de riffs de guitarra e um "refrão daqueles", outra das minhas favoritas, junto com "Send Him Away", que vem com a bateria "retinha", mas os baixos, guitarras e teclados dão uma certa "latinidade roqueira", tipo aquelas levadas do "Love" ou "The Doors", com um finalzão temperado a palmas e muita caixa "quebrando tudo". Uma alegria só! A última música, falando um monte de "I want to live alone", fecha bem um disco que abre cheio dos "let's get high!"

  Se você gosta de rocks dançantes, bem humorados e cheio de climas oitentistas, certamente vai achar que este é um discão que veio pra abrir bem a safra de 2009. Aproveito e desafio você a ouvir em alto e bom som e manter as pernas imóveis!!!

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

quando Qualquer Coisa serve...

"Qualquer Coisa, um podcast sobre nada!" 
É com este bem humorado slogan que José Flávio Júnior, Paulo Terron e Max de Castro apresentam seu podcast. Conversas amigáveis, histórias interessantes, convidados especiais e muito boa música são o que diferenciam o "Qualquer Coisa" de uma "coisa qualquer"! 


foto de quando o programa teve a participação especial de Nina Becker, Kassin, Pedro Sá e Chernobyl.


- José Flávio Júnior escreve para a Revista Bravo e Folha de S. Paulo.
- Paulo Terron tem um blog supimpa chamado With Lasers (http://pauloterron.ig.com.br/)
- Max de Castro é um músico muito talentoso e você não vai se arrepender de conhecer um pouco sua obra! (http://www.myspace.com/maxdecastro)

E ai!? Te anima experimentar um pouco de "Qualquer Coisa"!? 

http://www.gcast.com/u/qualquercoisa

domingo, 28 de dezembro de 2008

Festando e Refletindo com Veríssimo [Orgias, 1989]

Hoje é 28 de Dezembro e nos restam apenas mais 4 dos 365 dias que nós mesmos nos damos para chegar a algum lugar. Apesar de todo mundo saber que a divisão do tempo é algo arbitrário, o dia em que a terra termina uma volta completa em torno do sol é tomado em consideração para varias coisas sérias e outras nem tanto.

O dia 31 de Dezembro é o dia da ressaca moral, igual àquela manhã com dores de cabeça e estomago embrulhado, quando você decide nunca mais beber como na noite anterior e resolver lavar a roupa suja com ex-afetos e alguns desafetos. É nesse dia "ressacal" de fim de ano que decidimos não cometer mais os mesmos erros do ano que passou.

E assim como as segundas-feiras são o dia preferido para se começar dietas depois de um domingão farto em gulodices, o primeiro dia do novo ano é o preferido para se começar grandes planos, depois de um ano farto de eventos mirabolantes, de índole duvidosa, bons e maus. Mas da mesma forma que a decisão de segurar a onda na festança nunca vigora, quando nos damos conta estamos nós, no decorrer do ano, fazendo novamente tudo o que planejamos não fazer.

Mas já que não seguir as regras é algo muito natural do ser humano, nada melhor do que rir disso tudo, e Luis Fernando Veríssimo ajuda muito nessa hora. Em seu livro Orgias (1989, ed. L± relançado em 2005 pela Objetiva), ele celebra essas horas mágicas das festas, quando as pessoas se divertem pelo simples prazer da diversão e acabam entrando em algumas saias justas e situações cotidianas especialíssimas. Enfim, se é dito que a vida é uma festa, então nada mais normal do que estabelecer regras e não segui-las todas, exceto aquelas que nos mantém vivos (e muitos ainda raramente fazem isso).

Festejemos o Ano Novo e adjacências!

Várias pessoas se identificarão com os personagens do diálogo abaixo, uma reflexão animada de fim de ano, um pedacinho de uma das crônicas que estão no livro, que vale a pena ser lido por inteiro, como qualquer obra dos Veríssimos. Enfim, tenham um final de ano bastante inspirado e um 2009 acima da média. Divirtam-se!

- Olhe.
- O que é isso?

- Aquele livro que você me emprestou.
- Eu não me lembro de…
- Faz muito tempo. E, na verdade, você não emprestou. Eu peguei. Eu costumava fazer isso. Nunca mais vou fazer.

- Você pode ficar com o livro. Eu…
- Não! Ajude a me regenerar. Quem fazia essas coisas não era eu. Era outra pessoa. Um crápula. Decidi mudar. Este sou o eu 2006. Comecei devolvendo todos os livros que peguei dos amigos. Acabou com a minha biblioteca, mas que diabo. Me sinto bem fazendo isto. Outra coisa. Precisamos nos ver mais. Eu abandonei os amigos. Abandonei os amigos! Olhe, vou à sua casa este sábado.
- Não. Ahn…

- Prometo não roubar nada.

- Não é isso. É que…

- Já sei. Vamos combinar um jantarzinho lá em casa. A Santa e eu estamos ótimos. Fiz um juramento, na noite de ano bom. Que me regeneraria. E ela me aceitou de volta. Há dois dias que não olho para outra mulher. Dois dias inteiros! Isso era coisa do outro.

- Sim.
- Do crápula.

- Sei…
- Eu era horrível, não era? Diz a verdade. Pode dizer. Uma das coisas que eu resolvi é não bater mais em ninguém. Era ou não era?
- O que é isso?
- Como é que eu podia ser tão horrível, meu Deus?
- Calma. Você está transtornado. Vamos tomar um chopinho.
- Não! Não posso. Jurei que não botaria mais uma gota de álcool na boca.

- Mas um chopinho…

- Está bem. Um. Em honra da nossa amizade recuperada. E escuta…
- O quê?

- Deixa eu ficar com o livro mais uns dias. Ainda não tive tempo de…

- Claro. Toma.

- E vamos ao chope. Lá no alemão, onde tem mais mulher.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

"gentil à tua mão, aberta pra quem é..."

Hoje é aniversário do "Nevilton Pai", por isso ontem fui ao mercado e comprei cervejas de vários tipos, snacks e queijo! Durante a noite, quando a família toda já estava em casa, trouxe à sala as cervejas geladíssimas, queijo cortado em cubinhos e snacks pra rechear as horas que faltavam, para nosso amigão chegar animado a nova idade! Tal fato e alegria me ajudarão a fazer comparações ao disco que vou sugerir aqui: o Little Joy, do Little Joy, lançado neste 4 de Novembro, pela Rough Trade.

Little Joy é um projeto de amigos que deixaram seus lares e rotinas para gravar um disco em Los Angeles. Fabrizio Moretti (The Strokes) e Rodrigo Amarante (Los Hermanos) se conheceram num festival em Lisboa, Portugal. Naquela ocasião conversaram a noite inteira, cogitando um dia trabalharem juntos em um projeto que não trouxesse muitas referências de suas respectivas bandas.

Após um ano, Amarante foi a Los Angeles gravar com
Devendra Banhart, e nas horas livres das gravações se encontrava com Moretti para conversarem mais sobre música. Foi nesta viagem e entre essas conversas que foram apresentados a Binki Shapiro, que já era de Los Angeles, e assim ganharam uma amiga e parceira para o projeto que cogitavam desde aquele festival.

Alguns meses depois, se mudaram para uma casa em Echo Park e começaram a gravar as demos das músicas que vinham trabalhando, e mais tarde, com a ajuda do produtor
Noah Georgeson, que gravou o disco do Banhart, gravaram o disco que trazia o mesmo nome do projeto, "Little Joy".

O resultado de tudo isso é muito bom! Músicas bonitas, com arranjos ricos em detalhes. As vezes os timbres e ideias fazem lembrar praias, filmes e momentos tranquilos com percussões e vocais vários! É de se ouvir com prazer! Apesar de serem vários arranjos e instrumentos, nada soa carregado ou confuso, dá pra sentir o timbre de cada coisa, tão fácil quanto diferenciar queijo de snack. E mesmo soando como algo meio que grandioso, por se tratar da dimensão do Strokes pro mercado mundial e do Los Hermanos para o público daqui, o disco consegue criar uma atmosfera aconchegante e informal, tipo beber cerveja e ouvir música na sala de casa, acompanhado das pessoas que você mais gosta.

As músicas que mais gostei foram: "The Next Time Around" e seus backings vocals fantásticos, a levada de "No one's better sake", a baladinha linda "Unattainable" cantada por Binki Shapiro, e "Keep me in mind" que me fez ter flashes de Los Hermanos e Strokes! :D






Pra quem gostou, ouvi dizer que dá pra baixar o disco por ai... :D

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Tchubarubarando com a Mallu.

O que pediria uma menina de 15 anos de idade ao seu pai rico? Certamente um monte de coisas legais como celulares, sapatos, roupas, festas ou viagens maneiras. O bom é que pra tudo tem exceção e, nesse caso tem até nome próprio: Mallu Magalhães.

Mallu poderia ser mais uma cocotinha paulistana, que torra a grana do pai bem de vida em frivolidades adolescentes que só a ajudariam a ter mais sucesso entre suas iguais, entretanto resolveu bancar a esperta e não ser simplesmente a melhor entre seu grupinho, resolveu ser realmente diferente de todas. Ao invés de um festerê lindo pra society, Mallu resolveu pedir um “paitrocínio” para gravar um disco com músicas escritas por ela mesma.

Mallu, mas parece a Judy Foster.

Com o presente do pai e suas canções ela foi até o estúdio “Lucia no Céu”, lá no Sumaré, em São Paulo e, juntamente com os músicos do local arranjou e gravou suas primeiras canções, disponibilizadas em seu MySpace. Dai pra frente, após divulgar bastante o trabalho e causar frison no circuito alternativo de São Paulo, blogs, jornais e MTV’s em geral, a menina ganha os festivais de música do Brasil e, já com 16 anos de idade, acompanhada pelos músicos do estúdio “Lucia no Céu”, que agora são a sua banda oficial, entra novamente em estúdio e grava o seu disco de verdade.

O trabalho é uma superprodução, com direito a equipamentos antigos da gravadora EMI restaurados (com os quais também foram gravadas as músicas do Led Zeppelin IV), instrumentos escolhidos à dedo como o piano usado por Tom Jobim, guitarras dos anos 50, colheres e panelas na bateria e experimentações diversas, tudo supervisionado pelo renomadíssimo produtor musical Mário Caldato, que já trabalhou com gente graúda como o Beastie Boys, Super Furry Animals, Molotov, Seu Jorge, Planet Hemp, Bebel Gilberto, Marcelo D2, Chico Science & Nação Zumbi, dentre outros. Enfim, com tudo isso junto, não poderia sair outra coisa senão um álbum de sonoridade caprichadíssima.

Mallu e sua turma, no estúdio.

Mallu Magalhães
e um leãozinho atento, estilo bolacha passatempo, é o que se vê na capa do disco que carrega o cancioneiro da garota paulistana e que foi lançado oficialmente no dia 15 de Novembro deste ano, durante o festival Gig Rock, em Porto Alegre. No festival estavam presentes diversos nomes de vulto da música independente nacional, mas a boa notícia para os conterrâneos é que a banda que se apresentou logo após o show de Mallu (muito bom, por sinal) foram os Umuaramenses do Nevilton, que continuam cada vez mais marcando presença no cenário nacional.


Na feira da fruta, o clipe de Tchubaruba.

Folk por excelência, dá pra se notar tons de Bod Dylan, Johnny Cash, Elvis Perkins e comparsas bem evidentes em todas as faixas do álbum, ainda mais que a maioria das músicas são em inglês, mas sem qualquer desabono no sotaque da garota. As guitarras de Kadu Abecassis, a bateria de Jorge Moreira e os baixos de Thiago Consorti, conversam de igual pra igual com os vilões, banjo e gaita de boca de Mallu, criando um clima feliz e colorido, inclusive nas músicas mais melancólicas.

Infelizmente, chega uma hora que a voz ainda um tanto infantil de Mallu começa a soar incômoda, dando a impressão de que o disco poderia terminar lá pela décima música ao invés de se estender por quinze. Mas isso é só um pequeno detalhe que é diminuído pela qualidade sonora e musical que essa trupe conseguiu criar nos 10 dias de gravação do álbum. E é essa criatividade de qualidade que faz com que cada nova canção que começa se torne uma surpresa dessa caixinha carinhosamente criada e decorada pela menina prodígio mais descolada do momento. Que sirva de exemplo!

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

1984: O ano em que o cérebro era troféu

Sob os olhares atentos e uma espécie de terror psicólogo, a obra “1984”, de George Orwell, escrito em 1948, fala de um mundo, Oceania (congregação de países de todos os oceanos), dominado pelo socialismo stalinista em 1984 (o inverso dos números do ano em que foi escrito). Em um mundo onde o Estado domina e nada é de ninguém - mas tudo é de todos - tudo o que resta de privado são os poucos centímetros quadrados do cérebro. E é aí que a batalha se desenvolve, entre o indivíduo e o Estado lutando na tentativa de controlar a mente.

Escrito no pós-guerra, o livro “1984” é um dos maiores clássicos do século passado. O romance de George Orwell descreve uma visão pessimista de um futuro sombrio. O autor inverteu o ano no título para criticar que o totalitarismo vigente em 1948 não era obra apenas de ficção científica. Os editores preferiram inverter os últimos dígitos para não assustar ainda mais os leitores. O ano de 1984 passou e pouco do que foi escrito se concretizou. Provavelmente nos próximos anos oitenta teremos uma sociedade mais parecida com a que foi imaginada por Orwell, pois ainda estamos no estágio experimental do controle da população.

A teletela, o aparelho imaginado por Orwell, é um eficiente receptor e emissor de dados que não se compara às limitações dos aparelhos de TV e dos micro-computadores. Para garantir a manutenção do Partido (tratado como Estado), os setores mais importantes da sociedade eram controlados por elas, sempre sob a onipresença do Grande Irmão (ou Big Brother e antes que me perguntem, lá vem a resposta: sim, o livro tecnicamente também inspirou o programa de TV).

Baseado na opressão dos regimes totalitários das décadas de 30 e 40, o livro não se resume a apenas criticar o stalinismo e o nazismo, mas toda a nivelação da sociedade, a redução do indivíduo em peça para servir ao Estado ou ao mercado através do controle total, incluindo o pensamento e a redução do idioma. A função de Winston Smith (personagem principal) é uma crítica à fabricação da verdade pela mídia e da ascensão e queda de ídolos de acordo com alguns interesses. No Miniver (Ministério da Verdade), ele alterava dados e jogava os originais no incinerador (Buraco da Memória) de tudo que pudesse contradizer as verdades do Partido.

Intrigante e ameaçadora, a obra, apesar de ser uma “visão de como seria o mundo em 1984”, deixa de lado o estereotipo corriqueiro de obras de ficção cientifica (que geralmente tratam o futuro como algo irreal). Indico a leitura principalmente a todos da área de comunicação. Com certeza, quem já leu, assim como eu, adorou!

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

O Ladrão de Sonhos [La Cité des Enfants Perdus, 1995]


Seu criador não o deixou a capacidade de sonhar. Sem sonhos, Krank era só um homem rabugento, um velho que continuava envelhecendo tão rápido que a vida não era nada de especial para ele. Sem sentimento algum, não chorava nem sorria, só mandava e desmandava em seus criados, isolado do mundo em sua plataforma no meio do mar. Mas ele tinha um plano, descobriu que poderia roubar os sonhos das crianças (já que adultos não sonham, são realistas demais) e com estes sonhos conseguiria não mais envelhecer e seria, enfim, um humano completo.

Porém, Krank não sabia com quem estava mexendo ao seqüestrar o “irmãozinho” de One, um brutamontes destemido que, com a ajuda da pequena e irresistível Miette e sua trupe de infantes bandidos, percorre lugares sombrios, mofados, desolados e habitados pelos seres mais bizarros, mas ao mesmo tempo poéticamente belos. Tudo isso para salvar seu irmãozinho e acabar com o reino de terror de Krank.

Krank em sua máquina de roubar sonhos.

Este é o pano de fundo do filme O Ladrão De Sonhos (The City of The Lost Children ou La Cité des Enfants Perdus), um longa metragem francês, lançado em 1995, com direção de Jean-Pierre Jeunet e Marc Caro. A dupla também dirigiu o maravilhoso Delicatessen e, Jeunet nos presenteou com o mitológico e Fabuloso Destino de Amélie Poulain. Em o Ladrão de Sonhos a realidade de um mundo fantástico se torna palpável através de uma cenografia e fotografia cuidadosamente elaboradas, além do estiloso figurino do famoso estilista francês Jean Paul Gaultier. Usar crianças maduras e adultos infantilizados é também uma piada deliciosa dos roteiristas.

One e Miette à caminho do reduto do velhaco Krank.

Os filmes Europeus, diferentemente dos norte-americanos, são bastante densos e provocam reflexões mais profundas. Alguns são intragáveis com tanta referência cultural, o que não acontece com esta obra prima. Nela, elementos como o medo, o egoísmo, o altruísmo, o amor, a amizade e outros mais, são abordados em uma visão universal e acessível a todos. Inclusive, a grande beleza nisso é que todos os elementos da história conspiram para que, assim como aquele velho rabugento, nós também percebamos que sonhar faz a vida algo melhor.

A idealização das coisas, tão fora de moda nestes tempos egoístas, é louvada enquanto o “seja realista e cuide do seu traseiro” não tem outro espaço no filme, senão o de vilão. É uma visão romanceada da vida, mas, ora bolas, estamos falando de um conto de fadas moderno, não poderia ser diferente. Não poderia ser melhor.

One e Miette.



O Trailler.

E para quem se interessou, o link para download.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Mudar da água para o vinho

Sexo: feminino.

Descrição: cabelos roxos compridos, roupas pretas, tatuagens e vários brincos.
Idade: 56 anos.
Quem é ela??? Uma roqueira desvairada e rebelde?! Errado. Esta é Baby do Brasil, ex-integrante do grupo “Novos Baianos”. Agora, uma pastora evangélica.

Como vocês sabem, Baby do Brasil (ex-Consuelo) já foi hippie, pregava o amor livre e fazia músicas, digamos, adiantas às de sua época. Os anos se passaram e aqui está ela totalmente mudada em seu interior, como ela mesma diz. De tão mudada, dizendo ter visto, várias vezes, sinais “gloriosos”, agora ela embarca como líder de um grupo religioso, ou, como quiserem, um novo culto denominado “Ministério do Espírito Santo de Deus em Nome do Senhor Jesus Cristo”, que já vem “salvando as almas perdidas” (que ela exemplifica como punks, skatistas e gays), há três anos.

Depois do milagre da multiplicação dos filhos (com nomes bem esquisitos, diga-se de passagem), a telúrica cósmica renova a fé fazendo aleijado andar e cego enxergar durante os cultos. O “Ministério do Espírito Santo em Nome do Senhor Jesus Cristo” foi fundado por Baby, depois que seu último CD não emplacou nem nas paradas de ônibus.


Há algum tempo, Baby fez a seguinte declaração: “Há poucos dias, estava cantando um louvor com a banda e entrou um senhor numa cadeira de rodas. Quando olhei para ele, senti que ia curar. O pastor foi orar com ele, e eu continuava louvando. De repente, ele levantou e andou”.
Segundo Baby, essa não foi a única vez que fiéis se curaram enquanto sua banda tocava. “Um dia, estava numa igreja e, quando o culto acabou, ouvi uma voz: ‘Volte a louvar’. Continuei o louvor, e minutos depois uma senhora de 75 anos, que estava acompanhada dos netos, levantou e começou a gritar: ‘Estou enxergando, estou enxergando’”, relatou a cantora.

Baby em sua fase hippie, com o grupo Novos Baianos, nos anos 70

Baby é um exemplo claro de boa parte da população que muda de crença, seja por problemas na família, financeiros, falta de “afinidade” com a religião ou crença que já freqüenta, entre outros motivos aparentemente inexplicáveis. No caso de Baby, que já passou por muitas, desde a filosofia hippie até aos ensinamentos do guru Thomas Green Morton (que divulgava o poder mágico da palavra Rá e dizia entortar talheres com a força da mente e fazer luzes surgirem do nada), vejo quão incompreensível é a velocidade de não permanecer ou acreditar em uma crença.
Não se trata de o que há de certo ou de errado em trocar de religião, mas é curioso o fato de algumas pessoas dizerem “mudar de vida”, de uma hora para a outra, acreditando obterem poderes divinos ao encontrarem Jesus.

Não que todas que digam isso sejam desorientadas, mas estas coisas colocam em “xeque” a fé que o indivíduo diz ter, como é o caso da “ex-Nova Baiana”. Depois de tanto mudar e dizer milhões de vezes na mídia que finalmente encontrou Jesus, ela “surtou de vez” e resolveu, sem mais nem menos, montar uma igreja sem ter feito nenhuma especialização (nenhum curso teológico) para poder “liderar um rebanho”. E não é só isso... Baby diz conseguir ressuscitar mortos, lutar contra o demônio (ela diz que é ele quem está por traz das crises e tragédias que estão acontecendo nos Estados Unidos), e ainda diz “curar” homossexuais. E, é claro, como toda boa igreja, cobra o dízimo dos seus seguidores.

Baby ainda mudou todas as letras de suas músicas e as “evangelizou” dizendo ter conseguido finalmente a paz espiritual. Mas será que o “finalmente” dessa vez é pra valer ou é mais um golpe de marketing para alavancar sua própria audiência?! É, porque, até bem pouco tempo atrás, ela só aparecia a cada seis meses nos programas de TV para dizer que mudou de religião, ou para dizer que não faz sexo há mais de cinco anos em respeito a Jesus. Acreditem, a ex-hippie não crê mais no amor carnal. A "popstora", como prefere ser chamada, parece até a Gretchen que só aparece para dizer que largou, trocou de marido, fez um filme pornô ou se aproveita da imagem da filha recém assumida homossexual.
É esperar pra ver, irmãos!

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Em Algum Lugar No Passado


Richard Collier, famoso escritor de teatro, durante a busca por inspiração para sua próxima peça, descobre que o grande amor da sua vida está no passado. Louco de amor ele tenta de tudo, até que consegue viajar no tempo e reviver aquela grande história. E não estamos falando de semanas, ele volta de 1980 para 1912!

Collier fez o que todos nós já quisemos ou vamos querer fazer um dia: voltar no tempo, consertar algumas coisas, reviver bons momentos e deixar a vida do jeito que a gente quer. O filme Em Algum Lugar no Passado (Somewhere in Time, USA, 1980), dirigido pelo francês Jeannot Szwarc, desperta as lágrimas de quem já se despediu alguma vez na vida e revive a esperança do eterno apaixonado. Mas no fim das contas é uma grande lição sobre o valor dos momentos na vida.

Cuidado, Collier... você ainda não é o Superman!

“O passado ao passado pertence” diz sabedoria popular, mas o insistente e apaixonado Richard não tá nem aí. Consegue um milagre em nome de seu amor por Elise McKenna, e esse romance, mesmo que numa realidade paralela, cria situações difíceis que só o grande desejo de estarem juntos para sempre pode mantê-los empenhados em prosseguir. Mas não dá, Richard, existe sempre uma armadilha para quando você acha que está tudo certo.

McKenna e Collier em 1912.

Eu sempre evitei os filmes de amor, romance meloso, mas depois desse, vi que por mais lindo e cor-de-rosa que seja a história, ela sempre nos faz refletir muito profundamente sobre o grande paradigma do amor, esse sentimento lindo e terrível. Aos otimistas o sorriso vem bonito com lágrimas floridas e aos pessimistas a realidade se mostra a injusta de sempre.

O elenco do filme é cheio de figurões dos anos 80, época em que foi filmado e o destaque é para o saudoso Christopher Reeve (o eterno Superman) ainda jovem e com uma evidente carreira de primeira grandeza. A trilha sonora, composta por John Barry (11 trilhas de James Bond nas costas) é uma das mais envolventes que eu já ouvi. O tema de “Em Algum Lugar no Passado” é tão romântico quanto um carinho de amor pela manhã e a “Rapsódia Sobre um Tema de Paganini”, de Rachmaninoff, só pode ter sido escrita enquanto ele flutuava por aí, ambas são canções na medida para uma história de amor.

Se o casal fica junto no final? Aí vai depender de como você vê a vida. Emocione-se.

É clichê...mas com muita classe!


Tema de Somewhere in Time, de John Barry


Rapsódia Sobre um Tema de Paganini, de Rachmaninoff.


Saiba mais (mas tem que saber inglês):

Site oficial do filme: http://www.somewhereintime.tv/

Fundação Christopher & Dana Reeve: http://www.christopherreeve.org

Baixe o filme no site Making Off (Necessário cadastro)

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

As Aventuras de Herman, o Marinheiro.


Herman já tinha sido bancário, professor e fazendeiro para ajudar sua mãe e sete irmãos a não passarem muito aperto depois que o pai morreu. Um dia resolve ser marinheiro e, à bordo vários navios, vive muitas aventuras pelo oceano pacífico, participa de motins e chega até mesmo a viver alguns meses com a tribo de canibais Typee, das Ilhas Marquesas, na Polinésia Francesa. (mais sobre as Ilhas Marquesas)

Em 1844 abandona a vida de homem do mar. Casa-se, em 1847, com Elizabeth e aproveita a bagagem cheia de histórias para escrever alguns livros, que foram grandes sucessos na segunda metade dos anos de 1840, o que garantiu a Herman e sua família algum status e conforto.

As Ilhas Marquesas. Até eu, heim Herman!

Apesar de parecer, o Herman de quem falamos não é um personagem fictício, ele é o escritor norte-americano Herman Melville, que em 1851, escreveu Moby Dick, ou A Baleia. O livro, publicado em três fascículos foi um fracasso na época e levou nosso amigo Herman ao ostracismo. Quando ele faleceu, em 28 de setembro de 1891, há exatos 117 anos atrás, o obituário do New York Times registrava o nome de Henry Melville e ninguém se importou, de tão apagada estava sua fama.

Entretanto, o maior fracasso de critica e público de Herman Melville é o livro pelo qual ele é lembrado hoje. O romance Moby Dick conta a história do jovem Ismael que, decidido a trabalhar na marinha mercante embarca no Pequod, navio baleeiro do capitão Ahab e o desenrolar da história transforma o livro numa obra de arte.

Talvez o grande conteúdo psicológico, divagações de Ismael e as implicações metafóricas de cada personagem e fatos do livro, tenha deixado o pessoal de 1851, ainda não apresentado à Psicanálise (Freud nasceria apenas em 1856) bastante entediado e por fora do assunto, o que pode explicar o grande fracasso, naquela época, de uma obra tão boa.

Capa e contra-capa da primeira edição de Moby Dick.

A riqueza de detalhes sobre barcos, métodos de pesca de baleias e curiosidades marítimas em geral, escrito com total domínio de causa, já que Melville passou anos de sua vida trabalhando na marinha mercante dos Estados Unidos, somada com a atemporariedade do tema, provoca uma sede por cada nova página de Moby Dick.

A vontade doente de vingança do Capitão Ahab; a tripulação alucinada que entra na onda do chefe, colocando em risco a própria vida; as divagações de Ismael, que dentre todos é o mais bem nutrido de razão, tudo isso se apodera do leitor e o leva junto à caça daquele feroz diabo branco, que pode ser uma simples baleia albina, ou o símbolo das mais variadas obsessões humanas.

P.S.: Se quiser ver a rota do baleeiro Pequod e de outros aventureiros da literatura, clique AQUI.