Mostrando postagens com marcador Crítica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Crítica. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

1984: O ano em que o cérebro era troféu

Sob os olhares atentos e uma espécie de terror psicólogo, a obra “1984”, de George Orwell, escrito em 1948, fala de um mundo, Oceania (congregação de países de todos os oceanos), dominado pelo socialismo stalinista em 1984 (o inverso dos números do ano em que foi escrito). Em um mundo onde o Estado domina e nada é de ninguém - mas tudo é de todos - tudo o que resta de privado são os poucos centímetros quadrados do cérebro. E é aí que a batalha se desenvolve, entre o indivíduo e o Estado lutando na tentativa de controlar a mente.

Escrito no pós-guerra, o livro “1984” é um dos maiores clássicos do século passado. O romance de George Orwell descreve uma visão pessimista de um futuro sombrio. O autor inverteu o ano no título para criticar que o totalitarismo vigente em 1948 não era obra apenas de ficção científica. Os editores preferiram inverter os últimos dígitos para não assustar ainda mais os leitores. O ano de 1984 passou e pouco do que foi escrito se concretizou. Provavelmente nos próximos anos oitenta teremos uma sociedade mais parecida com a que foi imaginada por Orwell, pois ainda estamos no estágio experimental do controle da população.

A teletela, o aparelho imaginado por Orwell, é um eficiente receptor e emissor de dados que não se compara às limitações dos aparelhos de TV e dos micro-computadores. Para garantir a manutenção do Partido (tratado como Estado), os setores mais importantes da sociedade eram controlados por elas, sempre sob a onipresença do Grande Irmão (ou Big Brother e antes que me perguntem, lá vem a resposta: sim, o livro tecnicamente também inspirou o programa de TV).

Baseado na opressão dos regimes totalitários das décadas de 30 e 40, o livro não se resume a apenas criticar o stalinismo e o nazismo, mas toda a nivelação da sociedade, a redução do indivíduo em peça para servir ao Estado ou ao mercado através do controle total, incluindo o pensamento e a redução do idioma. A função de Winston Smith (personagem principal) é uma crítica à fabricação da verdade pela mídia e da ascensão e queda de ídolos de acordo com alguns interesses. No Miniver (Ministério da Verdade), ele alterava dados e jogava os originais no incinerador (Buraco da Memória) de tudo que pudesse contradizer as verdades do Partido.

Intrigante e ameaçadora, a obra, apesar de ser uma “visão de como seria o mundo em 1984”, deixa de lado o estereotipo corriqueiro de obras de ficção cientifica (que geralmente tratam o futuro como algo irreal). Indico a leitura principalmente a todos da área de comunicação. Com certeza, quem já leu, assim como eu, adorou!

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Crítico é quem domina

A crítica é por si só uma perturbação. No caso da crítica cultural, a perturbação à arte e ao artista. A impropriedade da crítica cultural, no que diz respeito ao conteúdo, não decorre tanto da falta de respeito pelo que é criticado. No gesto acusatório da crítica, o crítico mantém a idéia de cultura firmemente isolada, inquestionada e dogmática.

O crítico de arte sempre incorpora a diferença no aparato cultural que gostaria de suplantar - aparato que precisa dessa diferença para poder se apresentar como cultura. Então, ele faz dessa pretensão um privilégio seu, perdendo até sua legitimação, “remando contra a maré do teor da arte em que julga”. Contudo, ele não pode se descuidar, afinal, pode acabar tornando sua crítica tão obsoleta quanto tudo o que critica.

Se alguém estudasse a profissão de crítico encontraria certamente em sua origem um elemento usurpador. A função do crítico está ligada a sua liberdade de opinião. O conceito dessa liberdade é o mesmo que a sociedade impõe, uma idéia de liberdade espiritual latente na sociedade burguesa, na qual a crítica se baseia, possui a sua própria dialética.


A cumplicidade da crítica cultural com a cultura não reside na mera mentalidade do crítico. É ditada, sobretudo, pela relação do crítico com aquilo que ele trata. Ao fazer da cultura o seu objeto, o crítico torna a objetivá-la. A crítica cultural somente pode reprovar tão incisivamente a cultura por sua decadência apontada como uma violação da pura autonomia do espírito, uma prostituição, porque a própria cultura surge da separação radical entre o trabalho intelectual e o trabalho braçal. A existência da crítica cultural, qualquer que seja seu conteúdo, depende do sistema econômico que está atrelada ao seu destino, ou seja, toda arte está em ligação em condições econômicas e a crítica é que define os valores para determinada arte.

Já que estabelece ligação com a economia, então, toda arte ou profissão ligada à cultura está sujeita à avaliação da sociedade, uma avaliação que pode ser positiva ou negativa. Em função da exposição da cultura, o crítico pode ser até exagerado. Faz de sua análise o propósito de influenciar, na sociedade, o objeto da cultura avaliada. O crítico tem de ter uma “cultura superior” à cultura de massa, mas sem deixar de entendê-la, para que com isso possa influenciar e até persuadir a sociedade no seu modo de pensar e agir. Trocando em miúdos, deve-se conhecer muito bem o assunto, por mais bizarro que seja, para poder discutir com segurança, respeitando, claro, as opiniões alheias. Como diria a minha avó: "vejo tudo o que passa na TV, por pior que seja, porque só conhecendo é que vou poder falar mal". Assim, critica quem domina, não quem vive de aparências. Crítico pode ser eu, pode ser você e até a minha avó!