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segunda-feira, 26 de outubro de 2009

E afinal, qualé a do Culturanja?

Os dissidentes dos Power Rangers, Bruno, Lobão e Nevilton se juntam numa nova força, o Culturanja.


Pois é, ainda envolvido nos arquivos culturânjicos, encontrei desta vez uma entrevista que os adoráveis Culturanjers deram para a sessão Ponto de Vista da página Qual é a Sua?, de Achiles Delari Junior, no jornal umuaramense A Tribuna do Povo. A entrevista foi publicada no dia 13 de abril de 2008 e está aí embaixo, do jeitinho que saiu no jornal, o que inclui a foto com o grande Sócrates, essa arte psicodélica do Nevilton e alguns lances subliminares marotos. Uh-lalá!

Ponto de Vista:




O Grupo Culturanja vem tomando iniciativas interessantes no campo da cultura em nossa cidade, como seu blog, publicação de artigo no Espaço do Leitor d’A Tribuna e sua "literatura de bolso". Além disso, participou na Conferência Municipal de Políticas Públicas para a Juventude, defendendo uma “ideologia do bom humor” e da “participação”, sem postura política definida.




Qualé?: Como e quando surgiu o grupo Culturanja, quem o compõe, e quais os seus objetivos?

Culturanja: Surgiu da necessidade de um meio para publicarmos o que vínhamos produzindo, com isso acabaríamos incentivando outras pessoas a tentarem fazer o mesmo e no final teríamos mais manifestações artísticas e culturais na cidade. O grupo é composto por Nevilton de Alencar, Tiago Inforzato, Bruno Peguim e outros amigos interessados em se expressar.


Qualé?: Quais as atividades ou táticas atuais do grupo no sentido de cumprir com os seus objetivos?

Culturanja: Temos um site com resenhas e contos, abrangendo vários temas, e a versão impressa, em formato de “leitura de bolso”, que distribuímos nas ruas e em eventos culturais da cidade.


Qualé?:Qual foi a participação do Culturanja na Conferência Municipal de Políticas Públicas para a Juventude e qual tendência política e ideológica vocês defenderam lá?

Culturanja:
Distribuímos um manifesto que, além de parabenizar os que participavam, incentivava as pessoas a serem ativas, a continuarem com aquelas práticas de pensar, planejar, debater, votar e mudar o estereótipo de “brasileiro acomodado”. A ideologia é a do “bom humor”, insistindo em lembrar as pessoas que há coisas para se votar e participar, que são mais importantes que o “paredão do Big Brother”.


"Nevilton, Sócrates, Tiago e Bruno."

Qualé?: Diz-se que “a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte” e concordamos. Mas o que vocês pensam dos que omitem que comer é essencial e falam como se pudéssemos viver só de discursos?

Culturanja:
Pois é, acreditamos que eles têm o direito de pensar o que bem entenderem, desde que não atrapalhem os que estão fazendo algo concreto para melhorar suas vidas.


Qualé?: O que mais, de interesse de vocês, poderia ser acrescentado ao que foi dito antes?

Culturanja:
Gostaríamos de agradecer ao espaço do “Qual é a sua?”, que também está divulgando o que se produz localmente, colaborando assim com a movimentação artistica e cultural de Umuarama e região.


Qualé?: Poderiam deixar referências para o leitor estabelecer contato?

Culturanja:
S.I.M.! Temos o www.culturanja.blogspot.com, o e-mail: culturanja@gmail.com e a versão impressa, distribuída nas ruas, bares e aglomerações culturais mais próximas de você!


Ps: Vejam quando essa história começou, clique aqui.


terça-feira, 20 de outubro de 2009

Culturanja na História


Percorrendo os imensos corredores dos arquivos "culturânjicos" me deparei com este texto escrito em conjunto, nas primeiras horas da madrugada do dia 27 de Fevereiro de 2008, pelos culturanjers do Paleolítico: Tiago Inforzato (que vos escreve), Bruno Peguim e Nevilton de Alencar .

Naqueles dias, para ser mais exato 26 e 27 de Fevereiro, acontecia em Umuarama a 1ª Conferência Municipal da Juventude. O evento elegeria os representantes da juventude umuaramense para o Conselho Municipal da Juventude, que atuaria em conjunto com a Administração Municipal nas questões referentes às políticas públicas para os jovens do município.

Inspirados pela movimentação da geralmente apática juventude da cidade (o que ainda não mudou muito), nós saímos do primeiro dia do evento e, após criativa discussão filosófica noturna (vide foto acima), redigimos este manifesto que foi entregue, no dia seguinte, a todos os participantes e autoridades lá presentes.

Os representantes jovens foram eleitos e depois não soube mais de nada do tal Conselho. Mas o texto tá aí, mais uma parte da nossa história de agitadores sociais! :cD


Nevilton, Bruno, Tiago e John. Sempre agitando a juventude!


S.I.M., nós temos "pedigrí" !

Em dias como esse é que podemos ter satisfação em ver brasileiros preocupados em mudar a situação do país, que podemos ver umuaramenses preocupados em desbancar a velha ladainha de que “santo de casa não faz milagre”, que podemos ver jovens preocupados em acabar com aquela história de que “política é coisa para gente grande”! Jovens deixando de lado a “gambiarra”, o imediatismo inconsequente, participando a tomar atitudes plausíveis hoje, para garantir um futuro digno (de verdade!).

Nos anos 50, por ocasião da derrota para o Uruguai na final da copa, o dramaturgo Nelson Rodrigues cunhou o termo “complexo de vira-lata” se referindo “a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo”. No entanto, esta expressão é muito mais abrangente, chegando a ser objeto de estudos sociológiocos que analisam profundamente o comportamento do brasileiro. Apresentamos aqui, a visão esclarecedora do sociólogo Humberto Mariotti sobre o brasileiro e essa sua alcunha:

Na análise efetuada por Humberto Mariotti, o brasileiro, por ainda não ter atingido o estágio de knowledge worker (trabalhador dotado de conhecimento) preconizado na década de 1950 por Peter Drucker (no qual o trabalhador domina o conhecimento e se torna menos suscetível aos efeitos devastadores do desemprego), contenta-se com pouco e sente-se satisfeito quando recebe alguma atenção por parte das autoridades. Esta auto-desqualificação já teria atravessado o Atlântico e chegado a Portugal, onde, segundo Mariotti, trabalhador brasileiro é sinônimo de garçom ou peão de construção civil. Nossa única profissão exportável, mesmo assim não qualificada pela educação formal é, como todos sabem, a de futebolista.

Para Mariotti, vencer este complexo de inferioridade, reforçado pelos sucessivos escândalos de corrupção nos quais o governo brasileiro esteve envolvido nos últimos anos, só poderá ser satisfatoriamente resolvido através da educação. Todavia, contrariamente a outros, não encara a raiz do problema num alegado deslumbramento brasileiro perante a cultura estrangeira (francesa até as primeiras décadas do século XX e estadunidense daí em diante). Para Mariotti, a baixa auto-estima nacional provocaria uma reação contrária, de supervalorização da cultura nacional, que se encapsularia em si mesma, e rejeitaria o que vem de fora: “No Brasil, e não só aqui, o nacionalismo cultural inclui a aversão à leitura, e sobretudo àquilo que muitos consideram a mais execrável de todas as atividades: pensar, refletir e discutir idéias com outros também dispostos a fazer isso.”

Mariotti conclui afirmando: “Como todo reducionismo, esse também produz resultados obscurantistas. Essa limitação nos leva, por exemplo, a imitar o que a cultura americana tem de pior (a massificação, a competição predatória, o imediatismo) e a não procurar aprender e praticar o que ela tem de melhor (a pontualidade, a objetividade, a pouca burocracia).”

Ficam aqui nossos parabéns a você que esteve presente na 1ª Conferência Municipal da Juventude e que demonstrou o interesse em mudar, dando o primeiro passo em busca de transformar discurso em ação.

Culturanja.
*site mantido por jovens que se preocupam com a produção cultural.


Ps: Nosso manifesto foi publicado n'A Tribuna do Povo, no sábado após o evento (01 de Março de 2008) e gerou esse artigo do Achiles Delari Jr. como respota. Leia e tenha suas próprias conclusões.

PS2: Acompanhem os desdobramentos dessa história e mais algumas "fotos de arquivo" aqui.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

O pai da geração Sessão-da-tarde

* * *
John Wilden Hughes, Jr. (1950 - 2009).

O início de agosto de 2009, quando passou, levou consigo John Wilden Hughes, Jr. (1950 - 2009), o autor, produtor e diretor cinematográfico dos Estados Unidos cujo a imaginação deu-nos clássicos como Esqueceram de mim, Gatinhas e gatões, Clube dos cinco, Curtindo a vida adoidado, A malandrinha, Mulher nota 1.000, et coetera.

Mulher nota 1.000.

Hughes nasceu em Michigan, e depois sua família foi para o Illinois, cenário da maior parte das produções de sua carreira. Começou com campanhas publicitárias. Anos depois, lançou um sucesso pela histórica National Lampoon, seguido de sua dourada coleção nomeada, em parte, acima.

Gatinhas e gatões.

Fugindo ao escracho do humor da National, sua abordagem mais realista e despretensiosa da adolescência norteamericana na estagnada década de 80, com seus grupos, sua alienação, apatia - sempre habilmente suavizados -, conquistou fãs por todo o mundo, entre os quais produtores hoje não menos consagrados, como Joel Schumacher, Kevin Smith e Wes Anderson, alçou diversos atores e atrizes ao estrelato, o Brat Pack, e, por maior feito, tornou sua obra o padrão de entretenimento da geração que nesta retratou.

Curtindo a vida adoidado.

No Brasil, através das diversas exibições vespertinas dos filmes de John (entre outros da mesma época) na Sessão da tarde da Rede Globo, crianças em tenra idade ao tempo dos lançamentos das películas têm oportunidade de deliciar-se com Ferris, Sloane, Andrew, Brian, Claire, Gary, Lisa, Wyatt, Kevin "aprontando várias confusões".

Clube dos cinco.

Os jovens que agora passam as tardes a teclar F5 em seus perfis do orkut depois da escola não entenderão por que escrevo sobre esse homem; entretanto, a quem desejou defender a casa a bandidos, fingir que está doente para não ir à escola, protagonizar um desfile cívico, quem não acha gay dançar por sobre uma viga a acochar com os amigos... Enfim, quem deve ao mestre várias das mais divertidas horas na vida, sentirá sua falta.

Esqueceram de mim.

Jamais será esquecido, John; descanse em paz. VALE.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

The Dudeism

***

Quero recomendar-lhes um filme.

Mesmo, algum ao ler este texto vai lembrar-se de ter sido conquistado pela obra a que irei referir quando de uma das reprises nas grades de programação da madrugada das emissoras abertas. A espécie de filme que se vê um ou outro sábado aborrecido que somos vítimas fim de semana sim e não; e que nos captura o carinho sem darmo-nos por conta; e de maneira definitiva.

O nome deste filme? The Big Lebowski (O grande Lebowski). Comédia americana publicada em 1998 por Joel e Ethan Coen. Protagonizada por Jeff Bridges, estrelaram nele também John Goodman, Julianne Moore, Philip Seymour Hoffman e Steve Buscemi - entre outros.

Antes da sinopse, permitam-me umas palavras sobre a reputação d'O grande Lebowski. É daqueles filmes chamados Cult pelos norteamericanos. Desta maneira como também de, por exemplo, Clube da luta, A noite dos mortos vivos ou Laranja mecânica, é, de fato, "cultuado" pelos fãs. Pesquisa rápida basta a que se encontre a festa anual para celebração da obra, Lebowski Fest, iniciada em 2002 nos Estados Unidos - mas não somente acolá realizada, há variações por várias partes do mundo, hoje: o nome da versão inglesa é interessante, "The Dude abides", uma fala durante a história -, com boliche, convidados fantasiados, encenações de passagens do roteiro dos Coen e a presença de parte do elenco. Até uma religião inpirada no filme existe!

Continuando pela Los Angeles de 1991 onde vivia o modesto Jeff Lebowski, que chama a si mesmo Cara, ele basicamente vive para jogar boliche com seus amigos, beber White russians e dirigir seu velho carro ao som dos Creedence. Em seu pequeno apartamento, tem muito orgulho de uma coisa: o tapete da sala. Quando dois capangas que querem cobrar a dívida de sua esposa (nunca se casara) o invadem e urinam no tal tapete, vai buscar indenização. Mas o "grande Lebowski" escorraça-o, julgando-o um hippie vagabundo e um aproveitador, então a única solução era roubar-lhe um dos vários tapetes da casa só para, em seguida, ter seu canto novamente violado, ser desmaiado por um soco e, ao acordar, ter seu tapete levado outra vez.

Depois de confundido por seu homônimo, Jeff compromete-se a entregar o resgate da jovem, pródiga, ninfomaníaca esposa-troféu do outro Lebowski, um milionário. Ele é contratado porque viu os capangas e pode identificá-los, caso sejam as mesmas pessoas, e aceita por não acreditar no rapto: sua opinião é que tudo foi forjado pela própria moça para arrancar ao marido mais dinheiro.

The Dude abides.

No dia marcado, a entrega não corre bem. A partir daí o Cara vê-se em situações complicadas e imprevistas, envolvendo o instinto maternal de uma artista plástica feminista que pinta suas telas nua, um grupo de músicos niilistas (também acho paradoxal), um produtor de filmes adultos de sobrenome que sugere o ramo, Treehorn, policiais e detetives, um pederasta já obrigado pela justiça a avisar toda vizinhança de suas práticas, boliche, Vietnã e por aí fora.

Estava o "Grande Lebowski" correto ao afirmar que Jeff era um hippie desempregado e despeitado; pelo fracasso de sua revolução há muito sem sentido de ser, há muito sem quem a defenda? É provável. No entanto muitos homens louvados na história não foram amigos de conselheiros nem daquilo que ouviam deles; da mesma forma. Ele queria indenização pelo tapete estragado pelos capangas, já que era o que compunha a sala. Pouco e simples: quer só continuar a ser o Cara. Mas quantos andam sem nem saber o que se lhes compõe? Demais, por falar do tapete, conseguirá recuperá-lo? Participará das produções de Treehorn junto do pederasta, ou permanecerá nos campeonatos amadores de boliche?

Sobrerrecomendado, se me perdoam o neologismo. VALE!


quinta-feira, 17 de julho de 2008

"O MAIOR ROMANCE JÁ ESCRITO"


***


Talvez somente o fato de que gênios, Freud e Einstein, entre outros, tenham declarado considerarem-no o maior romance já escrito, motivasse a que eu lhes indicasse a leitura de Irmãos Karamazovi, por Dostoiévski, último volume da obra deste e sua magnum opus; mas a autoridade e a qualidade desta sua realização, isoladamente consideradas, prescindem de tais socorros, tornando-as, essas opiniões, umas suas vaidades.


O parricído na família Karamazov é o plano de fundo para o mais jovem filho da vítima, Alexei, junto dos dois irmãos e dos outros personagens maiores na trama, mas, para o primeiro, principalmente por causa destes, enfrentar dúvidas existenciais às quais suas disposições naturais na infância e a rotina, os ensinamentos em um mosteiro, posteriormente, o protegeram, por parte de sua vida, perturbadas pelos últimos, como se fossem rajadas de vento, vindas de todos os lados, que o atingissem.



Página 03 da 1ª edição russa.


Deus existe; se meu sábio irmão Ivan contesta o que me disseram os monges? Devo ser cúmplice de meu irmão Dmítri, suspeito de assassinar meu pai? Merecia esse meu agora defunto progenitor, em toda sua vileza, destino mais benigno? Caso-me? Devo fornicar com a mulher protagonista da desgraça lançada sobre minha família, porque é bela e diz desejar-me? Teria esta família um diferente desfecho, da forma que começou e com o andamento tortuoso daqueles responsáveis por tocá-la, dos quais dependia para prosperar? Felizmente Alexei estava bem agasalhado por suas concepções religiosas, e não sofreu senão de um leve resfriado ideológico. Entretanto podem perceber, espero ter conseguido demonstrar, que a coisa é mais complexa que um who-done-it hollywoodiano ou um quem-matou-Lineu global.


Se ainda houver insatisfeitos que gostam de saber o que há para além da contra-capa da obra, alguma circunstância interessante a esse respeito vale dizer-lhes. Por exemplo, o modelo para o pai dos protagonistas foi o papai do autor, um proprietário de terras abusivo assassinado por empregados revoltados; e Alexei foi uma homenagem ao pequeno filho falecido de Dostoiévski. Em um painel maior, há a crítica a filósofos russos cujas idéias eram celebradas, à época da publicação: o niilista Ivan Karamazov provavelmente o seja ao Bazarov de Pai e filhos. Finalmente quero que, por favor, atentem o olhar histórico sempre presente, característica esta a que Tolstói resumiu, injustificadamente, os esforços de Fiódor Dostoiévski na arte da literatura.

O autor.


Sem mais... VALE!


P. S.: Aqui têm o livro em português, hospedado no todo-poderoso Scribd.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

DON'T TRY!

***

Charles Bukowski (1920; 1994) queria ser honesto quando escrevia seus livros, característicos e inseparáveis de seu autor ao que devem por seu sucesso e à originalidade que possuem; a velha fórmula que nunca falha; uma coisa simples e direta sempre vai ter um charme especial, um apelo muitas vezes difícil em ser definido, como a razão de muitas mulheres amarem os homens mais cafajestes, atraíram - e ainda o fazem - aos mais diversos leitores.


"Eu certamente nunca seria capaz de ser feliz, me casar, nunca poderia ter filhos".


Ele escrevia somente o que sabia exatamente ser conhecedor, visando - ao contrário de outros na história da literatura, que eram artífices maravilhosos, sem dúvida, mas não muito preocupados na verossimilhança ao ponto em que a ficção de Bukowski chegou - mais retratar, por dentro e fora, uma alma em seu, assim me permitam chamar, habitat.

Já mencionei algo sobre o "Um retrato do artista quando jovem", e agora chamo à atenção de vós outros um outro roman à clef, escrito pelo velho Hank, "Misto quente", publicado em 1982 pela folclórica editora americana Black Sparrow, já extinta. Acompanha a infância, a puberdade e o início da vida adulta do velho amigo da vizinhança bukowskiana (não é o Homem-aranha!), Henry Chinaski, vivendo, paupérrimo, com sua mãe e a cruel (para com esta e para com ele, o filho, também) figura paterna, que enfrentava dificuldades em aceitar a pobreza e o desemprego à sua volta e a ignorar o que acontecia, como se houvesse se transformado em um Don Quixote "do-mal", abusando física e mentalmente do garoto; tratando todos com desdém, traindo a esposa, e até, certa vez, intentando dar a entender que não havia perdido o emprego aos moradores do bairro, sair durante uma época com o carro todos os dias pela manhã, teoricamente para trabalhar; ou matriculando Chinaski Jr. em uma escola a quilômetros da residência da família, porque era "melhor freqüentada", por filhos de famílias não tão afetadas pela Depressão após a queda da Bolsa de Valores de New York em 1929... - Bem, segue a lista!


O jovem Bukowski comportadíssimo, ao seu costume.


A narrativa pinta o garoto tornando-se uma espécie de Frankenstein, marginalizado por causa de sua aparência "monstruosa" (ele sofreu de um caso gravíssimo de acne durante anos); aprendendo a beber, a não levar desaforos consigo sem resposta, a jogar; convidando-nos para dentro do sofrimento do protagonista, alienado a um grau mais intenso a cada capítulo. Aposto que, contraditório que pareça, irão adorar caminhar junto da Los Angeles que só ele viu e desnudou , como todo leitor experimentado de Charles Bukowski aprendeu já a fazer.

Sem mais, boa leitura! VALE.

P. S.: A ligação para o livro eletrônico "Misto quente".

quinta-feira, 8 de maio de 2008

NÓS NÃO SOMOS IMPRÓPRIOS PARA MENORES À TOA, QUERIDA!

***

Um Robert Crumb infeliz, vivendo com uns poucos amigos e nenhum sexo, só com seu talento para criar histórias fantásticas e pô-las no papel para publicação sob a forma dos quadrinhos, resolve desenvolver um novo personagem, uma forma de escapar às frustrações, o
alter ego dos pensamentos de Crumb - um ser que era esperto, elegante e autoconfiante -, o gato Fritz.


Conheçam Fritz o gato!

Quando Crumb chegava exausto do emprego odiado em sua casa, ele habituou-se a dedicar suas noites aos desenhos das aventuras de Fritz, um jovem felino acadêmico preocupado com conseguir garotas e livrar-se de situações "arriscadas" (imaginem uma paródia de James Bond com uma bola de pêlos presa à parede da garganta), mas não limitado a isso, porque em histórias mais recentes o autor abordava temas dos mais diversos por meio de Fritz, realçando o caráter de escape da criação, mudando de acordo com o que Crumb sentia necessidade de se afastar.

No fim, o animal de estimação de Robert fez sucesso, principalmente no movimento underground comix, sendo em diversas publicações colocado; destacando a Help! Que pertenceu ao antigo dono da famosíssima Revista Mad quando de sua circulação, sempre abordando nas cenas muitos intercursos sexuais e violência, especialidades de R. C.

O tempo então foi se passando, com a popularidade de Fritz o gato tornando-se maior e maior. Abriu-se-lhe o caminho da produção para dois filmes, classificados impróprios para menores, coisa que nunca acontecera antes com uma animação nos EUA. A censura não impediu o felino de brilhar nos cinemas, sucesso este que, sem embargo, também não era suficiente para agradar ao autor: Crumb estava tão insatisfeito com o resultado que, em 1972, n'uma das histórias Fritz o gato foi brutalmente assassinado por uma ex-namorada enfurecida, com um picador de gelo (sim, igual ao filme Instinto Assassino), nunca mais voltando a aparecer.


Cartaz de divulgação do 2º filme estrelando Fritz.

Sinto não lhes deixar uma ligação mais ágil à obra, mas uma busca ao sítio do 4share basta para aproveitarem esta dica. VALE!

sexta-feira, 28 de março de 2008

O CASTELO EM PROCESSO DE METAMORFOSE

***

UMA CURTA postagem para movimentar o Culturanja.

Neste momento atrás mesmo eu acessava o conteúdo do sítio do jornal gaúcho Zero Hora; foi em uma das ligações então que pude ler o blog de Vanessa Nunes, uma das colunistas, pelo que pude notar. Ela, em 16 de outubro de 2007, publicou uma foto mostrando o túmulo do grande mestre checo Franz Kafka. Confiram o que lhes digo aqui.



Kafka em 1906.


Lerão na ligação que lhes foi por mim disponibilizada acima que ela agradeceu a Kafka o espetacular corpo de sua obra - uma coisa que me prometi fazer frente ao túmulo do músico americano Jim Morrison em Paris, se tiver um dia a chance para viajar até a Cidade Luz, naturalmente - não interessa, eu divago... Se, lido o seu texto, fariam semelhante homenagem como a da autora - como eu -, não o posso adivinhar; mas aos que não o conhecem e têm curiosidade, uma mostra do Doutor Franz está aqui para ser lida, gratuitamente; e aos que lhe não são simpáticos ou coisa até pior, não é meu papel nem desejo discutir a opinião de ninguém: peço-lhes a estes desculpas pelo incômodo.


O túmulo onde o escritor Franz Kafka descansa, desde 1924, junto dos pais, em Praga.


Franz Kafka foi um homem perturbado, suas obras são o reflexo d’isso; alienação e perseguição, perseguição e alienação, partes de um caráter que sofria por não corresponder às expectativas nutridas por seu pai autoritário; entretanto são composições de uma das penas mais habilidosas do século passado, chamado por muitos estudiosos de "século
kafkiano".

Boa leitura. VALE.

quinta-feira, 6 de março de 2008

"AS COISAS QUE POSSUI ACABAM POSSUINDO VOCÊ".

***

ALGUÉM, d'entre as pessoas do sexo masculino com idade entre 15 e 30 anos, solteiro (ou mesmo aquele que deixou de o ser), que teve acesso a este texto, saiu de casa alguma vez, sentou-se em um bar - ou boteco, ou boate - e viu que linda mulher estava junto de um velho, nojento e barrigudo, mas cheio da grana, que ela agarra como se estivesse beijando o próprio Brad Pitt?

Acredito que isso lhes seja familiar.

Outra questão, falando novamente àqueles que se enquadraram na definição acima: alguém, d'entre os senhores, frente à cena referida, quis ter a mesma condição financeira do idiota; a carteira cheia, o carro novo, importado, as roupas caras, os bajuladores, os olhares dos outros freqüentadores do ambiente?

A resposta de muitos terá sido sim, novamente.

Uma última indagação, curta – eu lhes prometo - agora para os jovens que pelo menos uma vez presenciaram e desejaram essa fama, dinheiro, mulheres et cetera, e, no entanto, não conseguiram ainda: os senhores que me lêem agora já sentiram uma revolta contra essa situação? - Sim?

Então não m'engano; é para os senhores que falo.

A questão de quem sempre fica com as melhores mulheres (Machado de Assis dizia que eram os homens descarados... Talvez no tempo d'ele!), é óbvio, é exemplificativo, porque se estende sobre vários outros aspectos: fazia-me ficar nervoso o fato de que meu ex-patrão deixava-me trabalhando no escritório todos os sábados enquanto pescava no Porto Figueira com os amigos ou com o Diabo que o viesse carregar; e é a mesma coisa!

Voltando ao mencionado ator norte-americano, Brad Pitt, em 1999 ele foi o protagonista de um filme intitulado Fight Club, Clube da Luta, que teve o roteiro adaptado da primeira obra publicada, em 1996, pelo autor, conterrâneo do senhor Pitt, Chuck Palahniuck.

A capa da 1ª edição de Clube da Luta nos EUA.

Segundo a Wikipédia, Clube da Luta seria parte de outro livro que Palahniuck escreveu; e que os editores rejeitaram, alegando ser muito perturbador. Com essa resposta, o autor resolveu expandir o sexto capítulo do manuscrito até o tamanho de um romance, tentando, d'essa vez deliberadamente, ser o mais perturbador possível. Ao contrário do que esperava Chuck, agora decidiram pela publicação. Era dado à luz Fight Club.

O romance traz a história de um homem de meia idade, que está descontente com a sociedade consumista e superficial à qual pertence; e resolve então, com a ajuda de seu novo amigo, Tyler Durden, assumir uma postura radical quanto a esta. Inicia-se pelo clube, o primeiro passo dos dois nessa direção. Logo vários outros homens da geração "criada pelas mulheres", como define Palahniuck, se junta aos dois. Mas esse era somente o primeiro passo de um plano muito maior, que se revela durante o livro, que, para completar, tem um desfecho imprevisível e fantástico.

O pôster do filme de 1999.

Sei bem que a versão hollywoodiana é um fenômeno da cultura popular, todos sabem também quem é o senhor Durden e qual seu plano; mas ler o livro que originou as desventuras do "Narrador" será interessante, a despeito d'isso.

Fica a sugestão! Boa leitura. VALE.



P. S.: O link para adquirir a obra, em português.



P. S. 2: E-book gratis, em português.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

MINHAS IMPRESSÕES DESORGANIZADAS E SUPERFICIAIS SOBRE PORTRAIT OF THE ARTIST AS A YOUNG MAN

INÚMERAS vezes enquanto lia o Portrait of the artist as a young man, meu amor pela beleza me deteve em um determinado parágrafo insistindo em se me destacar; e deixei-me, em cada uma d'estas ocasiões, transportar para a melancólica Dublin de Stephen Dedalus (o alter-ego do próprio autor). Relia duas, três, até quatro vezes um determinado período, conforme a admiração por sua invejável técnica fazia-me reflectir, divagar, menear enfim a cabeça, desconcertado diante da perfeição artística da obra.

Acompanhei a tenra infância que o abandonou; a fé que foi por ele abandonada. O discurso moral do pai ao pequenino, curioso, silencioso e obediente Stephen sufocar n'as dificuldades financeiras (prestem muita atenção à passagem da "língua do 'boro'" - a "língua do 'P'" dos irlandeses -, quando Stephen chega do colégio e descobre que serão novamente despejados por outro senhorio), e como, após entrar na faculdade, o filho não suporta mais a visão da figura do progenitor e o sentimento, pode-se concluir, é recíproco.


James Joyce no verão de 1904.


Do tronco que sustenta os acontecimentos principais aos galhos mais jovens (além da "língua do 'boro'", notem as cores que o talento de Joyce deu às memórias de sua primeira experiência amorosa); do estilo que vai amadurecendo conforme cresce o protagonista: ele faz-nos, a nós os leitores, perceber o desenvolvimento do embrião-d'escritor, que o fez mais tarde capaz de coisas como:


"She seemed like one whom magic had changed into the likeness of a strange and beautiful seabird. Her long slender bare legs were delicate as a crane's and pure save where an emerald trail of seaweed had fashioned itself as a sign upon the flesh. Her thighs, fuller and soft-hued as ivory, were bared almost to the hips, where the white fringes of her drawers were like feathering on soft white down. Her slate-blue skirts were kilted boldly about her waist and dovetailed behind her. Her bosom was as a bird's, soft and slight, slight and soft as the breast of some dark-plumaged dove. But her long hair was girlish: and girlish, and touched with the wonder of mortal beauty, her face".
(James Joyce; 1882-1941)


Esta é, pois, minha dica, merecedora do título que recebeu de mim mesmo, aos culturanjeiros que querem ler algo que, ao contrário d'este pobre orador que lha redigiu, merece o tempo e a paciência de vós outros. VALE.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Ricky o chimpanzé

Direi o que está acontecendo por aqui em primeiro lugar: não me especificaram pauta/assunto/matéria alguma (o que considero uma temeridade por parte dos outros colaboradores, que conhecem o quanto às vezes posso ser considerado... H'm... Exótico). Sendo dessa forma resolvi que darei voz a um cara que não faço idéia de quem seja, chamado Kalif.

"Por que?" perguntar-me-ão.

Encontrei o perfil do orkut de Kalif na comunidade do escritor americano Charles Bukowski, do qual sou um fã enstusiasmada e escancaradamente (mesmo isso não sendo importante saberem neste texto). Ele escreveu um mini-conto chamado Ricky o chimpanzé, que eu gostei muito e transcrevi logo abaixo, já que eu quero, humildemente, dentro das minhas limitações e da pífia oratória que não consigo dominar e que não vou, provavelmente, que a CULTURANJA abranja manifestações como a de meu conhecido de internet - cultura que vale a pena encontramos em todos os lugares, é isso mesmo, mas, por outro lado, parece que em especial onde não estamos a procurá-la.

Espero que também gostem da história de Ricky como eu.

Boa Leitura!

P. S.: Gostei desse blog, só que eu me sinto aquele chato do Zeca Camargo hauehaueaheahuheaeuaheaheaheue.


Ricky o chimpanzé

De repente a DJ Gih Paladino foi se abaixar para pegar o CDR com as musicas mais recentes que ela tinha baixado no soulseek, e levou o maior susto de sua vida. Ricky o chimpanzé pareceu vir do nada, fulminante, e sem vergonha nenhuma, ignorando por completo o aprendizado de tantos anos que tivera com a experiente e renomada zoóloga Estrela Do Bom Fim. O chimpanzé agarrou a pobre Italiana com ferocidade, sem que ela tivesse tempo de reagir.

Ricky logo enfiou o seu "brinquedinho" na pobre Gih, esta que não tinha colocado calcinha com a intenção de impressionar Cláudio o promoter, ao final da festa. Foi uma cena para lá de surrealista, ao mesmo tempo apavorante e nojenta, mas também tragicômica e absurdamente espetacular. A platéia assistia, alguns aterrorizados, mas a grande maioria estava dando gritos de incentivo ao macaco pervertido que estava mais excitado do que um carcerário que acabou de ser solto e foi direto para o puteiro mais sofisticado da cidade com Viagra escorrendo pelas veias.

Foi aí que a Sophia Cardinale, Siciliana e lésbica fervorosa, amante secreta da DJ Paladino, entrou em cena gritando histericamente:

- Ma que fa macaco figlio de una putana!! Svitato, maledetto!! Porca miseria!

Aiuto! Chiami un´ambulanza! Presto!

Ahh, Gih, mi amore, pobre bambina, olha o que esse verme fez com você!

Sophia bateu no pobre animal com uma força brutal, quase inumana, sem piedade nenhuma (digna de sicilianos, dos mais bravos, diga-se de passagem) e grande parte do publico vaiou, revoltados com a interrupção do espetáculo animal que tinham pela frente. A verdade é que estava na cara que o chimpanzé Ricky ainda não tinha terminado o serviço na Italiana. Aquele macaco estava cheio de gás, era realmente incrível.

No final da noite Ricky foi levado de volta para o zoológico, e a Sophia foi presa pela S.P.A.

E a Gih...bem, coitada, melhor nem comentar...