quinta-feira, 17 de julho de 2008

"O MAIOR ROMANCE JÁ ESCRITO"


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Talvez somente o fato de que gênios, Freud e Einstein, entre outros, tenham declarado considerarem-no o maior romance já escrito, motivasse a que eu lhes indicasse a leitura de Irmãos Karamazovi, por Dostoiévski, último volume da obra deste e sua magnum opus; mas a autoridade e a qualidade desta sua realização, isoladamente consideradas, prescindem de tais socorros, tornando-as, essas opiniões, umas suas vaidades.


O parricído na família Karamazov é o plano de fundo para o mais jovem filho da vítima, Alexei, junto dos dois irmãos e dos outros personagens maiores na trama, mas, para o primeiro, principalmente por causa destes, enfrentar dúvidas existenciais às quais suas disposições naturais na infância e a rotina, os ensinamentos em um mosteiro, posteriormente, o protegeram, por parte de sua vida, perturbadas pelos últimos, como se fossem rajadas de vento, vindas de todos os lados, que o atingissem.



Página 03 da 1ª edição russa.


Deus existe; se meu sábio irmão Ivan contesta o que me disseram os monges? Devo ser cúmplice de meu irmão Dmítri, suspeito de assassinar meu pai? Merecia esse meu agora defunto progenitor, em toda sua vileza, destino mais benigno? Caso-me? Devo fornicar com a mulher protagonista da desgraça lançada sobre minha família, porque é bela e diz desejar-me? Teria esta família um diferente desfecho, da forma que começou e com o andamento tortuoso daqueles responsáveis por tocá-la, dos quais dependia para prosperar? Felizmente Alexei estava bem agasalhado por suas concepções religiosas, e não sofreu senão de um leve resfriado ideológico. Entretanto podem perceber, espero ter conseguido demonstrar, que a coisa é mais complexa que um who-done-it hollywoodiano ou um quem-matou-Lineu global.


Se ainda houver insatisfeitos que gostam de saber o que há para além da contra-capa da obra, alguma circunstância interessante a esse respeito vale dizer-lhes. Por exemplo, o modelo para o pai dos protagonistas foi o papai do autor, um proprietário de terras abusivo assassinado por empregados revoltados; e Alexei foi uma homenagem ao pequeno filho falecido de Dostoiévski. Em um painel maior, há a crítica a filósofos russos cujas idéias eram celebradas, à época da publicação: o niilista Ivan Karamazov provavelmente o seja ao Bazarov de Pai e filhos. Finalmente quero que, por favor, atentem o olhar histórico sempre presente, característica esta a que Tolstói resumiu, injustificadamente, os esforços de Fiódor Dostoiévski na arte da literatura.

O autor.


Sem mais... VALE!


P. S.: Aqui têm o livro em português, hospedado no todo-poderoso Scribd.

sábado, 5 de julho de 2008

A Nova Ordem Começa em Casa.

Olá, voltamos após uma semana de "folga". Posso dizer que o texto abaixo é um texto necessário. Foi feito com muito carinho, pelo grande amigo "Maranhão". Muitos o lerão e só. Mas muitos o lerão e sentirão uma necessidade de agir, reverenciarão princípios que hoje são, muitas vezes, tratados com desdém e refletirão sobre a evolução da eterna necessidade de Paz e Amor. A escolha é sua.

José Carlos Gonçalves, conhecido mundialmente como Maranhão é um grande amigo e guru. Foi bancário, professor e agora e sempre é escritor de Umuarama. Já teve seus trabalhos (poesia e prosa) publicados em vários periódicos, coletâneas e antologias. É, com certeza, um cara a se ler. Ah! e é também alguém a se encontrar num churrasquinho, molhar a goela e por-se a filosofar junto. Imperdível.

Aproveitem a leitura.

Arte, Cultura e Sociedade - O (En) Fim De Um Sonho

Por José Carlos 'Maranhão'


A maioria dos discursos, tanto nos Fóruns Sociais, mundo afora, como nas mais diversas esferas ecológicas, políticas, econômicas, eclesiásticas e “hortifruti” em geral, fala da necessidade de uma “nova ordem” em fortes bases democráticas.

Parece-nos que está nascendo uma nova era de utopia, que clama por liberdade ampla, tanto para as ações como para as idéias. Todo esse debate nos transporta ao final da década de 60, quando a palavra de ordem foi uma só: AMOR.

Talvez aquele período tenha sido cicatrizado com as mortes de nomes tão fundamentais da música como Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison (Doors), Brian Jones (ex-Stones), ou, talvez, tenha sido o tempo que não morreu e nunca morrerá, tempo esse em que a utopia alcançou o seu ápice.

Muitos o viveram do lado de dentro, acordados durante o sonho da nação Woodstock, e de outros festivais. Naquele momento, “Paz e Amor” não foi apenas uma frase, pois a sua importância foi tão grande, a criatividade girou em órbita tão alta, que vale a pena levantar a cortina e relembrar o que poucos sabem a respeito do movimento “hippie”, que a música imortalizou para sempre, criando um mundo de idéias e uma nova ideologia:

Foi um fenômeno único na História. Nunca a música teve tanta importância, figurando no centro de profundas mudanças no indivíduo e na sociedade. Pela primeira vez o mundo experimentou uma revolução que não seguiu o caminho político, nem militar. Foi uma espécie de guerrilha cultural, de um movimento espontâneo e insinuante que, apossando-se dos meios de comunicação ou criando canais alternativos, conquistou simpatizantes por toda parte e ameaçou colocar a Utopia no poder. Foi como um sonho de verão e durou pouco, mas ao se deixar devorar pelo Sistema, essa contracultura injetou nele – Sistema – para sempre uma gama de novos valores, e as coisas nunca mais foram como antes.

Hoje é difícil imaginar e entender o “poder jovem” e os “hippies” sem associá-los ao “Rock”, o som que cadenciou aqueles anos de luta contra o Sistema e de procura do Prazer Absoluto.

A crônica dos Anos de Utopia começou no fim de semana de 16-18 de junho de 1967, no Monterey Pop Festival, inspirado nos festivais de “jazz” e “folk”. Eram esperados 7.100 expectadores, mas acabou aparecendo mais de 50 mil, a maioria sem ingresso.

Esse contingente pensava que o importante era estar lá, fiel ao “slogan” do festival: MÚSICA, AMOR E FLORES. Próxima de San Francisco, na costa da Califórnia, Monterey atraiu não só as hordas de “hippies” sanfranciscanas, mas também seus melhores grupos de rock. Nele desfilaram, por exemplo, The Who, Eric Burdon & The Animals, Jeff Airplane, The Mamas and Papas, Canned Heat, Country Joe and Fish; mostrou também o nascimento instantâneo de duas estrelas do rock: Janis Joplin e Jimi Hendrix, hoje mitos.


Desde janeiro daquele ano estavam acontecendo, em San Francisco, os preparativos para o tão anunciado “Verão do Amor”. Os “hippies” da cidade deram uma demonstração de força ao convocarem uma “Reunião de Todas as Tribos” no Golden Gate Park para o chamado World’s First Human Be-In, onde mais de vinte mil “ciganos brancos”, cantando, dançando, cobertos de flores, de colares e pulseiras de contas, profetizaram que cem mil flower children invadiriam a cidade em junho para o verão do amor.

Uma canção de Scott McKenzie, intitulada San Francisco, propagava o verão do amor e pedia a todos que não se esquecessem de colocar flores nos cabelos; um verdadeiro manifesto “hippie” que dizia All across the nation/ Such a strange vibration/ People in motion/ There’s a whole generation/ With a new explanation... ou seja, Através de toda a nação/ Há uma estranha vibração/ Todo um povo em ação/ Há uma nova geração/ com uma nova explicação...

Jornais da época diziam que havia um “proletariado freudiano” à solta; outros diziam haver “expatriados vivendo em nossas praias, mas além da sociedade”. O historiador Arnold Toybee falou em “um sinal vermelho para o American way of life”.

O bispo James Parker, da Califórnia, disse que o movimento evocava os primeiros cristãos, pois, havia algo no temperamento e na qualidade daquelas pessoas, uma suavidade, uma calma, um interesse, algo bom, mas, para seus pais, profundamente preocupados, eles mais pareciam párias sociais perigosamente iludidos, candidatos a uma boa surra e a um curso intensivo de moral e civismo.

Qualquer que tenha sido o seu significado ou o seu objetivo, os “hippies” emergiram no cenário norte-americano naquele período com uma subcultura totalmente nova, uma bizarra permutação do ethos da classe média americana do qual evoluíram.

Duas correntes – a cultura e a política – se fundiram em 1969, o ano dos grandes festivais, cujo ponto maior foi o fim de semana de 15-17 de agosto. O Woodstock Music & Art Fair, subtitulado “Primeira Exposição Aquariana”, prometeu três dias de paz e música, slogan depois transformado em “três dias de paz e amor”.

Aquela epopéia foi vivida por mais de 500 mil pessoas, que, movidas a Rock in roll e muita bebida, é lembrada até hoje como um sonho – para uns – ou um pesadelo – para outros. O certo é que muitos jovens, em 69, estavam dispostos a ir à luta armada para uma nova Guerra de Secessão, ou Guerra da Independência, contra os Estados Unidos.


A partir de então, o Sistema passou a se sentir vulnerável, reprimindo à força e considerando como invasão e ameaça todos os movimentos musicais ou estudantis. Os festivais prosseguiram e prosseguem até hoje, mas sem a força de um Woodstock ou Monterey.

Assim, restam apenas as lembranças, cunhadas em panfletos, que viraram relíquias, como as do movimento do Parque do Povo de Berkeley que diz: “Todo mundo deveria poder se expressar e se desenvolver através da arte, do artesanato, trabalho, dança, escultura, jardinagem e todos os meios abertos à imaginação. O material será colocado à disposição de todas as pessoas. Desafiaremos todas as restrições puritanas contrárias à cultura e ao sexo. Contaremos com meios de comunicação – jornais, cartazes, panfletos, rádio, televisão, filmes e anúncios de fumaça no céu – para divulgar nossa comunidade revolucionária. Cessaremos com a poluição da Terra; nossa relação com a natureza será guiada pela razão e pela beleza muito mais do que pelo lucro. A civilização de concreto e plástico será derrubada e as coisas naturais respeitadas. Fundaremos comunas urbanas e rurais onde as pessoas possam encontrar expressão e comunicação...”

Não pretendemos aqui fazer apologia aos americanos, muito pelo contrário. Mas pensamos que muito do que está acontecendo de novo agora, no Brasil, e especialmente nos Fóruns Sociais, provocantes e engajados na política, na educação, nas artes e nas relações sociais – amor, fraternidade, família, comunidade – é criação, ou da juventude que se acha profundamente politizada, ou daqueles que se dirigem primordialmente aos jovens.

A exemplo da geração “hippie”, nós temos sonhado com uma nova revolução. Não como as do passado, armadas, mas como aquela utopia dos anos 60: com origem no indivíduo e na cultura, mudando a estrutura política apenas no final. Não recorrendo à violência para vencer e não podendo ser vencida pela violência.

Essa seria a revolução da nova geração, na qual a contracultura, primeiro ou último recurso sócio-político, viria não tanto da força da música, mas da força de vontade dos excluídos ou daqueles que tenham a coragem para se opor a um mundo conservador, cercado, enjaulado e subjugado por esse sistema econômico selvagem e ultramercantilista existente no mundo, hoje, globalizado.

A nossa energia imaculada e pacífica não deve se transformar em uma vasta e bocejante sensação de futilidade, onde parece não haver saída - problema que nos tira o sono e a vontade de lutar e de viver - porque nada é tão contagiante como o gosto pela liberdade.

Ser livre é ser revolucionário e alegre; arriscar-se é sinônimo de liberdade, pois o máximo de segurança representa a escravidão. E o que buscamos não é uma relação onírica, mas a certeza de uma liberdade plena.

“Paz e Amor”, foi e continua a ser um slogan válido para todos os lugares e tempos.

sábado, 21 de junho de 2008

Ainda há Tempo!

Prólogo:

Vasculhando textos perdidos, encontrei esta resenha, ainda inédita sobre um evento bem especial. Não poderia deixá-la de lado, natimorta. Espero que gostem!

Cadê a Corneta?!?


Quando você ouve falar “Grupo Vocal” a primeira coisa que lhe vem na cabeça é: “Tédio...” ? Bom, você pode acertar algumas vezes, mas não quando falamos do grupo Vocal Tempo, de Cuba. Nessa hora você está 100% enganado.

Graças a exemplar iniciativa do SESC e da Fundação Cultural de Umuarama, pudemos ter o privilégio de apreciar, nesta sexta-feira, 25 de Abril, no Centro Cultural Schubert (lotadíssimo), o espetáculo vocal de nossos hermanos cubanos. Com um repertório composto em sua maior parte de música latina (bolero, mambo, cha-cha-cha...) e algo das big bands norte-americanas dos anos 50, o grupo fez um show excelente, diferente e animado.

Exclusivamente munidos dos vocais, eles reproduzem o som de todos os outros instrumentos, como percussão, contra-baixo, trompete, corneta, guitarra e tudo mais o que for preciso para reproduzir as músicas, além, é claro, dos vocais cantados normalmente. A afinação das vozes e a proximidade do som que imitam com o timbre original dos instrumentos é surpreendente.

O grupo Vocal Tempo existe desde 1998, quando seus seis integrantes (os mesmos até hoje) cursavam a faculdade de música em Cuba. Uma das disciplinas do curso, desenvolvia essa técnica de usar a boca para imitar os sons de instrumentos musicais. Adotaram e desenvolveram a idéia e hoje são os melhores do mundo neste ramo. O grupo já acumula centenas de apresentações pelas Américas e Europa, e estarão pelo Brasil apenas durante o mês de Abril, com apresentações quase que diárias em diversas cidades. Portanto, quem perdeu, perdeu bonito! Sobraram os Youtubes da vida pra matar a lombriga, ou a saudade pra quem conferiu.


"Yo Quiero Mambo!"

Mais informações: www.vocaltempo.com

sábado, 14 de junho de 2008

"Ó Pátria amada, idolatrada, salve, salve"?!?

Ainda há quem duvide que Brasil tenha tecnologia suficiente para se conectar com o mundo todo. Saiba você que aqui já tem televisão, redes telefônicas, computadores de acesso rápido à internet, e até o tal do MSN. A comunicação aqui existe e não tem ruído. O brasileiro que é brasileiro, não tem problemas com o diálogo, por isso é acostumado a esclarecer situações por meio desses avanços tecnológicos; principalmente em público né?! Porque brasileiro adora aparecer.
Político aqui é igual pescador, vive contando histórias. Histórias que dão o que falar. Na maioria das vezes, absurdos, absurdos que viram espetáculo. Sim, um espetáculo público transformado, vira e mexe, em CPI, tudo p
orque brasileiro adora aparecer.
E os programas que alegram nossas tardes?! Pérolas televisivas em que o brasileiro aparece para desabafar, contar causos, acusar o parceiro ou a parceira de traição, saber quem é o pai do filho ou o filho querer conhecer o pai. Tudo em público, porque brasileiro adora aparecer.
Nossas músicas já não são mais gritos de liberdade, nem hinos de louvor. Já não fazem mais sentido se não embalarem casais apaixonados em novelas de sucesso ou fazer “tchutchucas e tigrões balançarem a melancia”. Os bailes já não são mais saraus, são “baladas” no final de semana. Um mais “bombado” que o outro. E tudo isso porque brasileiro adora aparecer.
Falar de amor no Brasil é moleza, aqui até se morre por amor. Basta acompanhar o noticiário para saber quantos assassinatos acontecem diariamente envolvendo namorados, irmãos, pais, mães, avós, Izabellas, Ops! Quer dizer, menininhas indefesas... E tudo isso, claro, é publicamente “investigado”, para não dizer “sensacionalizado”. E por quê??? Só por que brasileiro adora aparecer?!?

* Foto de João Araújo
Não se notam as plácidas margens; e quase não se vê na TV, o povo heróico. O sol da liberdade? Hoje brilha no céu com seus raios que ardem na gente. E nem me fale em igualdade. Não mostram mais as conquistas com braço forte.
A liberdade? Essa continua a desafiar-nos até a morte. A Pátria amada, idolatrada, salve, salve... continuo buscando. Um Brasil de um sonho intenso, de amor e de esperança, com um formoso céu, risonho e límpido, resplandecente. Gigante pela própria natureza. Belo, forte, impávido colosso! Espero, no futuro, toda essa grandeza, para que a minha Terra adorada, também seja a de mil, de todos os filhos deste solo, a mãe gentil, pátria amada que, apesar de tudo, ainda é o Brasil!

sexta-feira, 6 de junho de 2008

DON'T TRY!

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Charles Bukowski (1920; 1994) queria ser honesto quando escrevia seus livros, característicos e inseparáveis de seu autor ao que devem por seu sucesso e à originalidade que possuem; a velha fórmula que nunca falha; uma coisa simples e direta sempre vai ter um charme especial, um apelo muitas vezes difícil em ser definido, como a razão de muitas mulheres amarem os homens mais cafajestes, atraíram - e ainda o fazem - aos mais diversos leitores.


"Eu certamente nunca seria capaz de ser feliz, me casar, nunca poderia ter filhos".


Ele escrevia somente o que sabia exatamente ser conhecedor, visando - ao contrário de outros na história da literatura, que eram artífices maravilhosos, sem dúvida, mas não muito preocupados na verossimilhança ao ponto em que a ficção de Bukowski chegou - mais retratar, por dentro e fora, uma alma em seu, assim me permitam chamar, habitat.

Já mencionei algo sobre o "Um retrato do artista quando jovem", e agora chamo à atenção de vós outros um outro roman à clef, escrito pelo velho Hank, "Misto quente", publicado em 1982 pela folclórica editora americana Black Sparrow, já extinta. Acompanha a infância, a puberdade e o início da vida adulta do velho amigo da vizinhança bukowskiana (não é o Homem-aranha!), Henry Chinaski, vivendo, paupérrimo, com sua mãe e a cruel (para com esta e para com ele, o filho, também) figura paterna, que enfrentava dificuldades em aceitar a pobreza e o desemprego à sua volta e a ignorar o que acontecia, como se houvesse se transformado em um Don Quixote "do-mal", abusando física e mentalmente do garoto; tratando todos com desdém, traindo a esposa, e até, certa vez, intentando dar a entender que não havia perdido o emprego aos moradores do bairro, sair durante uma época com o carro todos os dias pela manhã, teoricamente para trabalhar; ou matriculando Chinaski Jr. em uma escola a quilômetros da residência da família, porque era "melhor freqüentada", por filhos de famílias não tão afetadas pela Depressão após a queda da Bolsa de Valores de New York em 1929... - Bem, segue a lista!


O jovem Bukowski comportadíssimo, ao seu costume.


A narrativa pinta o garoto tornando-se uma espécie de Frankenstein, marginalizado por causa de sua aparência "monstruosa" (ele sofreu de um caso gravíssimo de acne durante anos); aprendendo a beber, a não levar desaforos consigo sem resposta, a jogar; convidando-nos para dentro do sofrimento do protagonista, alienado a um grau mais intenso a cada capítulo. Aposto que, contraditório que pareça, irão adorar caminhar junto da Los Angeles que só ele viu e desnudou , como todo leitor experimentado de Charles Bukowski aprendeu já a fazer.

Sem mais, boa leitura! VALE.

P. S.: A ligação para o livro eletrônico "Misto quente".

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Crítico é quem domina

A crítica é por si só uma perturbação. No caso da crítica cultural, a perturbação à arte e ao artista. A impropriedade da crítica cultural, no que diz respeito ao conteúdo, não decorre tanto da falta de respeito pelo que é criticado. No gesto acusatório da crítica, o crítico mantém a idéia de cultura firmemente isolada, inquestionada e dogmática.

O crítico de arte sempre incorpora a diferença no aparato cultural que gostaria de suplantar - aparato que precisa dessa diferença para poder se apresentar como cultura. Então, ele faz dessa pretensão um privilégio seu, perdendo até sua legitimação, “remando contra a maré do teor da arte em que julga”. Contudo, ele não pode se descuidar, afinal, pode acabar tornando sua crítica tão obsoleta quanto tudo o que critica.

Se alguém estudasse a profissão de crítico encontraria certamente em sua origem um elemento usurpador. A função do crítico está ligada a sua liberdade de opinião. O conceito dessa liberdade é o mesmo que a sociedade impõe, uma idéia de liberdade espiritual latente na sociedade burguesa, na qual a crítica se baseia, possui a sua própria dialética.


A cumplicidade da crítica cultural com a cultura não reside na mera mentalidade do crítico. É ditada, sobretudo, pela relação do crítico com aquilo que ele trata. Ao fazer da cultura o seu objeto, o crítico torna a objetivá-la. A crítica cultural somente pode reprovar tão incisivamente a cultura por sua decadência apontada como uma violação da pura autonomia do espírito, uma prostituição, porque a própria cultura surge da separação radical entre o trabalho intelectual e o trabalho braçal. A existência da crítica cultural, qualquer que seja seu conteúdo, depende do sistema econômico que está atrelada ao seu destino, ou seja, toda arte está em ligação em condições econômicas e a crítica é que define os valores para determinada arte.

Já que estabelece ligação com a economia, então, toda arte ou profissão ligada à cultura está sujeita à avaliação da sociedade, uma avaliação que pode ser positiva ou negativa. Em função da exposição da cultura, o crítico pode ser até exagerado. Faz de sua análise o propósito de influenciar, na sociedade, o objeto da cultura avaliada. O crítico tem de ter uma “cultura superior” à cultura de massa, mas sem deixar de entendê-la, para que com isso possa influenciar e até persuadir a sociedade no seu modo de pensar e agir. Trocando em miúdos, deve-se conhecer muito bem o assunto, por mais bizarro que seja, para poder discutir com segurança, respeitando, claro, as opiniões alheias. Como diria a minha avó: "vejo tudo o que passa na TV, por pior que seja, porque só conhecendo é que vou poder falar mal". Assim, critica quem domina, não quem vive de aparências. Crítico pode ser eu, pode ser você e até a minha avó!

Ler Devia Ser Proibido!



Esta é uma campanha de incentivo à leitura idealizada, trabalhada e apresentada por: Deborah Toniolo, Marina Xavier, Julia Brasileiro, Igor Melo, Jader Félix, João Paulo Moura, Luciano Midlej, Marcos Diniz, Paulo Diniz, Filipe Bezerra. (Alunos do 2ºano - turma pp02/2003 - do curso de Publicidade e Propaganda da UNIFACS - Universidade Salvador), com texto adaptado de Guimar Grammont (clique para o texto original) O vídeo foi encontrado no site Youtube.

Pensemos de onde surgem as invenções como aviões, espaçonaves, telefones, telefones celulares, televisão e demais utilidades que nos deixam bem confortáveis hoje. Certamente não é da mente de alguém sem imaginação. Nada mais do que uma ótima reflexão para aqueles que, ainda hoje, falam sem vergonha alguma: “Eu odeio ler”, como se fosse algum mérito ter a cachola vazia.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

O Mal-Estar Nosso de Cada Dia.

por Thiago Calixto


Medo, do latim metu, significa perturbação resultante da idéia de um perigo real ou aparente ou da presença de algo estranho, perigoso. Medonho, portanto, que mete medo, horrendo. O que, homem, que lhe incute pavor? Muitos são os nomes, mas não são ditos. Não podem ser ditos.

Que é esse estado inundado pelo incomensurável vazio de existir?

Que dor é essa que lhe esculpe o corpo?

Que tristeza é essa que clama a pílula da ignorância?

Que fome é essa devoradora daquele seio destroçado?

Que sede é essa que o álcool não aplaca?

Que sintoma é esse que grita via agressão?

Que me diz desse fanatismo ansioso frente ao desamparo?

A compreensão dos meandros vitais da humanidade e como corolário, da sociedade hodierna e suas inter-relações, foi-nos legado, mediante a natureza atemporal da Psicanálise, cujo criador, reputado Sigmund Freud, nascido à pequena Freiberg, antiga Morávia engendrou, especialmente, nos idos de 1929.


Freud à época supracitada.


Trata-se do clássico “O Mal-Estar na Civilização”, resultado do investimento, incansável e laborioso, de sua pena ao papel, cuja atividade se manteve inflexível - considerando a extensão holística de sua obra, iniciada em 1886 e encerrada tão somente em 1940 com “Esboço de Psicanálise” – até ser vencido, em Londres, pelo câncer (boca e mandíbula).


O trabalho em questão.


Na ânsia de absorver essa comunidade designada humana, deixo aqui minha dica de leitura, árdua e inquietante, conforme os “preceitos” deste ilibado e democrático espaço Culturanja, sem obviamente me furtar de consignar assertiva freudiana quando da queima de uma pilha de seus livros pelos nazistas: “é um progresso o que está se passando. Na Idade Média, eles teriam jogado a mim na fogueira, hoje em dia contentam-se em queimar os meus livros”.

Nietzsche diria (...) “ó humano presta atenção”!

Seguindo a tradição, data maxima venia, VALE!


quinta-feira, 15 de maio de 2008

Kurt Cobain : About A Son [2007]


No dia 05 de Abril deste ano de 2008, completaram 14 anos da morte de Kurt Cobain, certamente o artista mais revolucionário e controverso dos anos 90. Em 1994, ano de sua morte, ele estava com os perigosos 27 anos de idade, hoje seria um senhor rebelde – ou não – de 41. O fato é que Kurt será sempre lembrado como o jovem maluco que conseguiu seu espaço no grito, literalmente (triste ou raivoso), foi o cara que liderou o Nirvana e colocou o rock nos trilhos novamente depois de tanta purpurina e vídeo clip nos anos 80. Até hoje tudo o que leva seu nome provoca um comichão de curiosidade: será que ainda há algo a se saber sobre ele? Não, não há.

A curta vida de Kurt Cobain é assunto esgotado e é essa ausência de novidade o que se nota no documentário “Kurt Cobain About a Son - O Retrato de Uma Ausência”, lançado em fevereiro de 2007, dirigido por A. J. Schnack. A base do documentário foi uma série de entrevistas realizadas entre 1992 e 1993, em áudio, pelo músico e jornalista Michael Azerrad, que somaram um total de 25 horas de bate papo, devidamente reduzidas à 96 minutos.

A maioria das entrevistas foram realizadas durante as madrugadas, na casa de Cobain em Seatle e mostram um artista cansado da fama, do assédio da mídia e de como as pessoas criam expectativas idiotas sobre seus ídolos, o que por sua vez alimenta a indústria repugnante do mexerico e da fofoca.

Dave, Kurt e Krist, juntos foram o revolucionário Nirvana.

Cobain não adiciona nada de novo à sua biografia ou à imagem que carregamos dele em nossas mentes (e corações), talvez esta não era mesmo a intenção dos produtores do documentário, espero eu. O pai ausente, a mãe alcoólatra, a tia carinhosa, os amigos legais e os chatos, as drogas, as festas, a miséria, os dias e noites de mendigo nas ruas, o sucesso, o dinheiro e o aconchego de um lar e uma família no final, está tudo lá. Poderia ser a história de qualquer artista duro-na-queda do primeiro mundo, mas ele não foi qualquer um e está aí a diferença. Além do mais é interessante ouvir as histórias de sempre, contadas desta vez por seu protagonista, com suas observações e pontos de vista, sem o sensacionalismo e pedantismo da imprensa.

Percebemos um Cobain bastante lúcido, mas não menos melancólico. Uma pessoa preocupada com a imagem que passa aos outros e sua possível saída do mundo das drogas, pois agora tinha uma família a zelar e não iria cometer o mesmo pecado que seus pais cometeram com ele. Não queria que sua filha Frances tivesse uma cabeça perturbada como a dele. Em sua fala Cobain deixa claro a magnitude do trauma do divórcio de seus pais. O que dolorosamente impressiona são as inúmeras vezes nas quais ele menciona uma vontade incontrolável de estourar seus miolos em diversas fases de sua vida.

Os motivos reais de seu suicídio, naquele fatídico início de Abril, com um tiro de espingarda na cabeça, jamais serão conhecidos, mas o depoimento de Kurt nos permite sentir que ele preferiu morrer à cometer o mesmo erro que seus pais. Uma família sólida e feliz era algo muito importante para ele, e o risco dele – ou de sua fama - destruir tudo era muito grande.

A família Cobain: Frances e Courtney

Talvez a grande atração de “Kurt Cobain About a Son” seja mesmo o visual. Do Nirvana e de Kurt Cobain temos muito poucas imagens, mas podemos finalmente passear pelas tão imaginadas ruas de Aberdeen, Olympia e Seatle, sentir a textura cinza e úmida, o frio e o tédio de se viver em lugares como aquele. Uma trilha sonora deveras interessante, com canções de bandas admiradas por Kurt e que influenciaram seu som e modo de vida. As imagens do cotidiano com moradores locais nos fazem pensar no que Kurt Cobain já foi um dia: mais um na multidão entediada e triste de uma cidade moquifenta, com o sonho de ser algo mais do que um túmulo esquecido no fim dos tempos, no fim do mundo. Que bom que ele conseguiu o que queria, seremos sempre gratos.

O jovem Kurt.


Download de "Kurt Cobain About A Son" no site Makingoff.org.
É necessário cadastro, mas o site vale a pena.

*Adicionado em 05.04.2009: Os Ultimos dias de Kurt Cobain: Parte 1 / Parte 2

quinta-feira, 8 de maio de 2008

NÓS NÃO SOMOS IMPRÓPRIOS PARA MENORES À TOA, QUERIDA!

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Um Robert Crumb infeliz, vivendo com uns poucos amigos e nenhum sexo, só com seu talento para criar histórias fantásticas e pô-las no papel para publicação sob a forma dos quadrinhos, resolve desenvolver um novo personagem, uma forma de escapar às frustrações, o
alter ego dos pensamentos de Crumb - um ser que era esperto, elegante e autoconfiante -, o gato Fritz.


Conheçam Fritz o gato!

Quando Crumb chegava exausto do emprego odiado em sua casa, ele habituou-se a dedicar suas noites aos desenhos das aventuras de Fritz, um jovem felino acadêmico preocupado com conseguir garotas e livrar-se de situações "arriscadas" (imaginem uma paródia de James Bond com uma bola de pêlos presa à parede da garganta), mas não limitado a isso, porque em histórias mais recentes o autor abordava temas dos mais diversos por meio de Fritz, realçando o caráter de escape da criação, mudando de acordo com o que Crumb sentia necessidade de se afastar.

No fim, o animal de estimação de Robert fez sucesso, principalmente no movimento underground comix, sendo em diversas publicações colocado; destacando a Help! Que pertenceu ao antigo dono da famosíssima Revista Mad quando de sua circulação, sempre abordando nas cenas muitos intercursos sexuais e violência, especialidades de R. C.

O tempo então foi se passando, com a popularidade de Fritz o gato tornando-se maior e maior. Abriu-se-lhe o caminho da produção para dois filmes, classificados impróprios para menores, coisa que nunca acontecera antes com uma animação nos EUA. A censura não impediu o felino de brilhar nos cinemas, sucesso este que, sem embargo, também não era suficiente para agradar ao autor: Crumb estava tão insatisfeito com o resultado que, em 1972, n'uma das histórias Fritz o gato foi brutalmente assassinado por uma ex-namorada enfurecida, com um picador de gelo (sim, igual ao filme Instinto Assassino), nunca mais voltando a aparecer.


Cartaz de divulgação do 2º filme estrelando Fritz.

Sinto não lhes deixar uma ligação mais ágil à obra, mas uma busca ao sítio do 4share basta para aproveitarem esta dica. VALE!